A insolência de trabalhadores e estudantes em greve

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O dia 28 de maio de 2015 marcou o início da sétima greve dos setores da Educação Pública Federal desde que o governo PT chegou ao governo. O cenário que vem sendo delineado nos últimos anos aponta para uma ampla derrota da defesa por uma educação pública, gratuita e de qualidade. Esse contexto é aprofundado ainda pelos cortes no Orçamento dessa área em 2015, que já ultrapassou os 10 bilhões de reais, enquanto grandes conglomerados educacionais privados crescem a cada dia. A greve é deflagrada nesse momento de colapso do sistema público de ensino e seu desmonte pelo governo, tendo, desde seu começo, o desafio de evitar perdas salariais para os trabalhadores, além de disputar um projeto mais amplo de educação.

Para entender o porquê de uma greve nesse momento, em que alguns setores alegam ser desfavorável por causa da crise financeira pela qual o Brasil passa, faz-se necessário que aprofundemos alguns aspectos da conjuntura. Vivemos na pele as manifestações das crises inerentes ao capitalismo. Historicamente, a saída do capital para esses momentos consiste em ratificar a superexploração dos países periféricos e, nesse projeto, a educação consiste em um novo nicho de exploração que pode ser bastante lucrativo. É importante ressaltar também que o projeto neoliberal para a educação não começou agora, mas já vem sendo desenhado há algum tempo.

No Brasil, o campo que gere este projeto do capital forjou-se como resposta do movimento dos trabalhadores à derrota do projeto etapista, hegemônico na esquerda, frustrado de vez pelo Golpe Militar, em 1964. A Estratégia Democrático-Popular propugnava que as tarefas não realizadas na transição ao capitalismo no Brasil, como a reforma no sistema educacional, só poderiam ser de fato realizadas pelos trabalhadores e isso avançaria no acúmulo de forças para a revolução socialista. Entretanto, após 12 anos de hegemonia deste Campo Democrático Popular na condução do Estado, não há ruptura com a lógica capitalista e os limites desse projeto têm sido evidenciados. A revolução socialista é cada vez mais colocada no horizonte distante, em prol da administração da questão social brasileira em aliança com a burguesia, o que é refletido incisivamente no setor educacional.

livro_dilmaFrente a essa conjuntura, os movimentos sociais não têm conseguido apontar saídas concretas para o projeto neoliberal que vem sendo imposto. Esse imobilismo se deve, em parte, à hegemonia da pequena politica, consolidada nos governos petistas, com a adesão a um projeto neoliberal progressivo. A organização dos trabalhadores tem seu potencial subversivo esvaziado e nos é imposto o limite de apontar alternativas que sejam viáveis dentro da ordem. A formulação de políticas que geram consentimento passivo e apaziguam parte da classe trabalhadora também contribui para esse imobilismo. Isso ainda é reforçado pelo consentimento ativo de alguns movimentos, como a CUT, a UNE e a UBES, onde o capital encontra alguns de seus defensores.

O consentimento é gerado quando o Governo do PT incorpora reivindicações históricas da classe trabalhadora, como a ampliação do acesso ao ensino superior, sem romper, entretanto, com os interesses da burguesia. Um exemplo disso é o caso do FIES e do PROUNI, que configuram a transferência de recursos públicos para fundos privados, chegando ao absurdo de, em um ano em que se cortam bilhões da educação, grandes conglomerados educacionais seguirem crescendo e com privilégios. O avanço neoliberal no setor educacional se manifesta ainda de diversas formas, desde a educação básica, onde a discussão ideológica vem sendo claramente reprimida, utilizando uma falsa neutralidade do discurso como subterfúgio. No Ensino Superior, a expansão dissociada dos investimentos necessários para uma estruturação de qualidade e a precarização do trabalho, manifesta pelo avanço das terceirizações e retirada de direitos dos trabalhadores, reforçam o modelo neoliberal de educação que vem sendo imposto.

É importante enfatizar que as atuais políticas para democratização do acesso ao Ensino Superior não refletem necessariamente alterações na estrutura da sociedade. A diversificação do perfil social decorrente do ingresso de mais negros e negras, pobres e mulheres, não tem significado uma mudança na forma desigual como esses sujeitos ingressam no mercado de trabalho e são explorados. A maior parte da juventude empregada no Brasil hoje, por exemplo, recebe até um salário minimo e meio. Isso representa como as reformas na educação são impostas para melhor adequá-la ao interesse neoliberal, num contexto bastante específico de crise internacional, sem romper com a lógica do capitalismo na sociedade.

Hoje, o projeto do capital demanda uma “educação pobre para pobre”, que visa formar o indivíduo para alimentar o mercado de trabalho. Filhos das classes dominantes continuam acessando os cursos aos quais são destinadas mais verbas, complementando sua formação no exterior, enquanto a grande maioria dos estudantes cada vez mais se submete precocemente a relações de trabalho precarizadas durante a formação, para arcar com os seus custos, o que se mantém após a conclusão da graduação. Com isso, temos dois modelos de ensino colocados: um para os filhos da burguesia e outro para os filhos da classe trabalhadora.

Para combater esse quadro de avanço intenso da ofensiva neoliberal na educação, a greve se faz essencial. Trata-se de um mecanismo que pode trazer avanços na consciência e na mobilização de trabalhadores e estudantes. Para isso, é importante sua percepção enquanto instrumento pedagógico, em que se mobilize para além de suas demandas imediatas. Dessa forma, a greve pode apontar e construir saídas para que os movimentos se armem para o enfrentamento contra o projeto hegemônico de sociedade e universidade que está colocado.

Entretanto, os movimentos sociais de forma geral, e nisso se incluem os movimentos grevistas Brasil afora, precisam superar alguns obstáculos. Os diferentes casos de opressão que acontecem no movimento devem ser pautados com extrema seriedade. Não podemos ceder às negociações do governo que fingem atender algumas das pautas corporativas, tentando impor aos servidores e estudantes que aceitem migalhas e se submetam a acordos que amarram o movimento por mais 4 anos. Devemos também ter clareza de que o enfrentamento à conjuntura não pode se basear apenas em denúncias em abstrato ao governo e às “direções pelegas do movimento”.

Devemos tentar superar na prática os diversos problemas organizativos do movimento, avançar na unidade para além dos discursos, construir uma formação politica e militante que nos dê elemento para a análise da realidade e ajude a orientar nossas ações. É importante repensar os métodos que estamos utilizando, e concentrar nossas forças em pautas propositivas e unificadas, que sejam capazes de dialogar com realidades concretas para avançar na mobilização. Com isso, podemos transcender essas questões para pontos mais amplos, fazendo a defesa da educação de qualidade como uma bandeira do conjunto dxs oprimidxs e exploradxs, que não se esgote com a greve em si, mas siga enquanto processo coletivo para a disputa de um projeto.

Com todas as dificuldades, esses desafios vêm sendo enfrentados pelos movimentos grevistas pelo país (muitas vezes a contragosto das direções das entidades e dos movimentos), apontando possíveis saídas e testando soluções para esses dilemas. Não cabe a um ou outro grupo, isoladamente, superar a pequena política como horizonte da nossa ação militante, mas é preciso articular iniciativas do movimento estudantil e sindical que apontam neste sentido. É por isso que ratificamos a importância do caráter pedagógico da greve, de reinventar suas potencialidades e possibilidades para que, com sua intensificação, avancemos na mobilização da comunidade universitária e na articulação da universidade com a sociedade, em torno de um projeto da classe trabalhadora.

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