Dilemas e desafios do movimento estudantil

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Contribuição dxs militantes da frente juventude e movimento estudantil do Coletivo Desgovernar

Diante de uma crise do capital, umas das saídas encontradas para equilibrar as contas são os cortes drásticos nos gastos sociais pelo governo, e a educação é historicamente uma das áreas mais afetadas. Jesualdo Pereira, ex-Secretário de Educação Superior na gestão do ex-Ministro da Educação Aloizio Mercadante, ainda no governo Dilma, enviou um ofício às Instituições Federais no dia 11/05/2016, comunicando o cancelamento das bolsas permanência para cotistas. Essas bolsas, no valor de R$400,00, são concedidas a estudantes que atendem a um critério socioeconômico. A justificativa para esse corte foi o crescimento excessivo do público usuário: de acordo com o MEC, em 2013 havia 4.736 estudantes beneficiados, número que passou para 13.931 em 2016.

Esse discurso evidencia qual é o projeto de universidade em curso quando o estado é gerido para atender aos interesses do Capital. A assistência estudantil é vista como um obstáculo para quem enxerga educação como um negócio. A expansão da educação superior pública em termos quantitativos conta como balanço positivo do governo, refletido no discurso de que o/a filho/a do/a trabalhador/a hoje tem acesso a universidade. Entretanto, não são consideradas as dificuldades que este/a encontra para permanecer no curso, e não se tem/teve nenhuma preocupação com a permanência destes estudantes. A partir desse contexto, a mobilização de setores populares em torno de um projeto de universidade se faz essencial para disputarmos alternativas.

Nesse sentido, historicamente o Movimento Estudantil foi força viva presente nas mais diversas lutas, fazendo parte da linha de frente na resistência contra a ditadura. Por outro lado, os estudantes hoje seguem apáticos aos mais diversos golpes a educação. Vivenciamos uma conjuntura de aprofundamento de um modelo que precariza a educação superior, e temos um Movimento Estudantil com dificuldade de mobilizar a sua base, muitas das vezes não indo além da agitação e propaganda. Na maior parte das vezes, pauta-se exclusivamente a denúncia, sem alcançar a organização de estudantes em torno de uma plataforma propositiva para a universidade. Somado a isso, a esquerda insiste na construção de um movimento de cima para baixo, frequentemente negligenciando a importância da auto-organização dos estudantes como processo fundamental para se pensar as saídas necessárias.

Sem contar o fato das grandes entidades estudantis, UNE e UBES, terem sido dirigidas por organizações que de igual forma abandonaram os reais interesses estudantis bem como esvaziaram politicamente, para estar apoiando e defendendo um modelo de educação, que hoje nas universidades federais demonstram suas mais claras contradições que vão desde a evasão por falta de políticas eficazes de permanência a falta de estrutura básica. Esses problemas estruturais contribuem para um movimento estudantil com dificuldades em forjar grandes mobilizações para enfrentar aqueles/as que governam para poucos e ratificam um projeto de universidade para poucos.

Precisamos ir além e encontrar formas de mobilizar os estudantes. Necessitamos avançar e, para isso, cada um tem que compreender sua importância diante deste cenário de precarização, e que não existe outra saída se não a luta organizada. Mas como fazer isso? Como superar os problemas e desafios encontrados, caminhando para a construção de uma mobilização ampla e coletiva, com um programa popular para a universidade que seja de fato fruto da auto-organização de estudantes?

Em primeiro lugar, defendemos um movimento estudantil de esquerda que faça autocrítica sobre sua forma de organização nos últimos anos, sobre o que levou outros estudantes a não atenderem aos chamados de mobilização. Precisamos refletir sobre como estas mobilizações tem ocorrido, seus erros e acertos. O que tem sido priorizado? Como tem sido o diálogo dentro das escolas e universidades? Por que os secundaristas tem conseguido mobilizar fortes lutas, enquanto nas universidades a desmobilização é gritante?  Acreditamos que muitos setores se apegam à análises muito otimistas sobre a mobilização dos estudantes e trabalhadores, camuflando a atual apatia em que vive o movimento estudantil atualmente.

Além disso, é essencial avancarmos na construção de um projeto para as universidades. Queremos um Movimento Estudantil propositivo, com um programa construido a partir da mobilização autônoma dos estudantes. Precisamos ir alem das denúncias e agitação, dando concretude a nossas reivindicações para que de fato consigamos avançar. Sabemos que não será no sistema capitalista que vivemos atualmente que o projeto que almejamos de uma universidade de fato popular será conquistado e que se faz necessário que sejamos capazes de avançar na nossa organização coletiva construindo a muitas mãos para além dos muros da universidade um projeto de educação (e também de universidade). Sabemos que  diversas de nossas pautas se conectam com disputa de projeto societário, mas ainda assim temos avançado pouco, e somamos muitas derrotas.

A partir disso, nós da Desgovernar chamamos a todas e todos que, de forma auto-organizada, defendem a construção um movimento estudantil que seja capaz de superar velhas debilidades. Entendemos a autocrítica como processo medular no movimento que se pauta na realidade. Sem isso, não conseguiremos superar os problemas estruturais que o Movimento Estudantil tem apresentado. Sem esse elemento, não aprendemos com erros históricos e  não avançamos para o novo, não um novo que nega o passado, mas que o supera.

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