Editorial: Nada a temer senão o correr da luta

nadatemer

Os recentes acontecimentos despejaram sobre os militantes da esquerda socialista uma série de elementos que exigem respostas organizativas e políticas que ultrapassem a superficialidade da guerra de torcidas que se transformou o debate sobre o golpe.

Ao analisar o processo pelo qual um projeto de transformação social para o Brasil se esvaziou, Carlos Nelson Coutinho (2010) resgata a caracterização gramsciana da “hegemonia da pequena política” para ressaltar as características da grande política das classes dominantes no Brasil, naquele momento, isto é, submeter o potencial subversivo das classes subalternas, limitando o seu horizonte estratégico.

Ao render-se de vez a “pequena política”, dos corredores e gabinetes, a esquerda lulista rifou sucessivamente direitos dos trabalhadores e o enfrentamento a formas de opressão racial, homolesbobifobicas, machismo,etc…Mas sobretudo esvaziou o tônus das lutas sociais com a defesa do governa e seu pacto com as elites.

Em nome da governabilidade conservadora o PT e a esquerda governista aliançaram-se ao latifúndio contra a reforma agrária e a preservação ambiental, contra indígenas, atingidos por belo Monte e assassinados por grileiros. Aliançou-se aos tubarões da educação ampliando formas precárias de educação privada. Aliançou-se aos banqueiros e especuladores na deterioração das condições de vida da maioria da população. .Aliançou-se aos grandes meios de comunicação e não enfrentou o monopólio dos meios de comunicação. Ainda assim, cedendo aos interesses do grande capital e distanciando-se dos interesses de trabalhadorxs em luta o Partido dos Trabalhadores e a esquerda governista sofrem um ataque brutal dos segmentos com quem escolheu se aliar.

Em 2016, a grande política das classes dominantes no Brasil assume a feição dos seus setores mais intransigentes, com sentido mais direto da “luta pela defesa e conservação de uma determinada estrutura social e política”, que se materializa com o Governo Temer.

Coutinho não poderia prever o rumo dos acontecimentos, entretanto as tendências que traça se confirmam e se aprofundam. Incapazes de observar as particularidades desta conjuntura, a esquerda retoma, de forma anacrônica, as fórmulas dicotômicas, que, no fim, colocam novamente no mesmo campo os setores que defendem a “democracia” contra o “autoritarismo” no Brasil.

A chegada do novo ciclo eleitoral evidencia ainda mais a eficácia dos 14 anos em que todo o horizonte político da esquerda brasileira foi apequenado. Sem deixar de reproduzir nos movimentos a lógica da representação parlamentar e da disputa nos marcos da institucionalidade, a esquerda mais consequente, ao investir-se novamente de alternativa que não se corrompeu, rebaixa ainda mais o horizonte da política que defende, chegando a níveis microscópicos.

A política microscópica, hegemônica na esquerda, hoje, consiste no fato de que a distância entre o processo histórico que percorremos e a capacidade de compreensão dos equívocos coletivos e de autocrítica da estratégia que construimos se ampliam de tal forma que a política dá lugar a cegueira.

A geração de militantes que se forja neste cenário é acostumada a lutar e não ter vitórias; que, em geral, tem orientado grande parte dos esforços nas disputas de entidades e aparelhos sindicais, estudantis, de movimentos, sem perspectiva de capitalização deste empreendimento para nada além de saldos eleitorais e crescimento das suas organizações. A experiência das jornadas de junho chama atenção pelo rápido esvaziamento dos fóruns e pela reprodução da disputa pequena, da forma mais tacanha, na maior parte das organizações, dos novos militantes e até de novos coletivos.

Neste mesmo ano, os dados do DIEESE revelaram que o número de greves bateu recordes no Brasil, sem, no entanto, que as várias iniciativas sindicais e populares de esquerda conseguissem convergir. Mesmo com o crescimento do número de greves, de ocupações urbanas, lutas estudantis, movimentos de mulheres, muito pouco se acumula para a superação da estratégia democrático popular.

Qualquer possibilidade de diálogo produtivo, nessa conjuntura, deve partir das necessidades da maioria dos trabalhadores e trabalhadoras e segmentos oprimidos e explorados, que vem sendo atacados com as medidas do ajuste fiscal e a concessão do PT e  da esquerda institucional que cedeu ao projeto burguês conservador, nos últimos anos. Contudo, a reunião de oprimidxs e exploradxs ou a defesa do atendimento as suas demandas apenas pode ser consequente ao apontar para a necessária superação da estratégia democrático popular como projeto organizador dos esforços de transformação social no Brasil.

O que está em jogo não é uma questão semântica ou a busca por um tipo ideal de estratégia que não se relaciona com a militância cotidiana. Pelo contrário, representa o esforço da desnaturalização do “modus operandi” de uma militância hegemonicamente mal formada teoricamente, institucionalizada, que não consegue dar consequência as lutas e conquistar vitórias reais quando esbarra nas barreiras da institucionalidade e tem dificuldade em realizar leituras qualificadas para atuar frente ao ataques do capital.

A alternativa que precisamos ainda não existe. Não ignoramos as experiências organizativas da esquerda que existem, contudo, a conjuntura reforça a necessidade de reconstruirmos as bases do movimento anticapitalista no Brasil. Não podemos continuar, em nome da afirmação do programa revolucionário das nossas organizações, abrindo mão de mobilizar e organizar parte significativa da classe trabalhadora que abriu mão de construir coletivamente o enfrentamento a essa realidade.

A reconstrução deste campo, entretanto, não será possível sem que trabalhadores e trabalhadoras, oprimidxs e exploradxs sejam protagonistas, buscando soluções práticas para os dilemas do nosso tempo, que superem o horizonte da política de acordos e “capas pretas”, das disputas mesquinhas e aparelhamento. É tempo de duvidar, tempo de se misturar, sem medo de ser convencido por quem defende outra posição na esquerda. Façamos!

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