Reconstruir o movimento de trabalhadores no Brasil – autonomia como princípio e autoorganização como método

lula-abc

Das bandeiras dos partidos e movimentos queimadas nas jornadas de junho ao governo Temer, avança a posição mais intransigente das classes dominantes no Brasil. Sob os escombros do movimento sindical e popular, que, nos anos anteriores submeteram suas principais reivindicações aos gabinetes e acordos de governabilidade, organizam os setores mais precarizados em torno do conservadorismo religioso ou pró fascista e impõem derrotas escabrosas aos oprimidxs e exploradxs.

No Congresso Nacional, o PMDB e outros ex-aliados dos governos anteriores lideram uma agenda de retrocessos sociais e trabalhistas, dentre as quais o PL 4330 que permite a terceirização irrestrita, regulamentação e retirada do direito de greve dos servidores públicos, regulamentação da EC 81/2014, do trabalho escravo, com supressão da jornada exaustiva e trabalho degradante das penalidades previstas no Código Penal, a redução da idade para início da atividade laboral de 16 para 14 anos, o fim do abono permanência aos servidores públicos e outros.

Nos movimentos sociais, governistas sem governo tentam gestar alguma resposta, mas anos de submissão, mesmo que divulgadas suas autocríticas, não convencem. Pouco tempo atrás, a CUT sentava com patrões para negociar a redução do seguro desemprego.

Sob a consigna do “Fora Temer”, conseguem recompor uma frente ampla em defesa da democracia, que na falta de um projeto de transformação que supere as precárias visões dicotômicas de país, sem aprofundar nenhum debate de projeto de organização que supere a atual derrota do campo dos trabalhadores, que envolve a usurpação da presidência em golpe parlamentar, mas que se constrói a partir do apassivamento protagonizado nos anos de governo do PT.

Essa defesa difusa da democracia convocada pelos ex-governistas arrasta parte importante dos que estiveram na oposição de esquerda aos governos Lula e Dilma, em nome da defesa formal das regras democráticas do Estado. Nada abala os preparativos da esquerda partidária para as eleições do legislativo e executivo municipais, que continuam submetendo todo o movimento que atuam à lógica institucional.

O movimento dos trabalhadores no Brasil, desde a década de 1930, se confunde com estruturas de representação estatal do tipo sindical. Apesar do protagonismo de setores anarquistas no inicio do séc. XX, o movimento dos trabalhadores confunde-se com a história de sindicalismos e representações oficiais.

Uma importante crítica a este movimento sindical institucionalizado  e diluído em estruturas de representação e negociação coletiva surgiu no processo de luta pela “redemocratização”, nos sindicatos e oposições sindicais da década de 1970, cuja referencia mais lembrada são os sindicatos do ABC Paulista e as greves emblemáticas de 1978 e 1979.

Esta crítica, chamada de novo sindicalismo, foi parte de um processo de questionamento da estratégia hegemônica na esquerda Brasileira, em particular a esquerda Comunista, cujo a maior referencia era o PCB. A crítica à unidade com os pelegos, a aposta na democratização da sociedade e na negociação e centralmente a invocação do principio da autonomia do movimento sindical em relação aos partidos e organizações comunistas, que flertava com formas conservadoras de corporativismo. No entanto, esse processo foi adensado pelo corporativismo herdado da estrutura sindical que marca a guinada destes segmentos ao velho sindicalismo.Lula ícone do ciclo dirigente do PT e ícone dessa guinada era representativo de setores mais pauperizados de um segmento organizado capitalizou este processo.

A guinada do movimento de trabalhadores à gestão do Estado, a partir dos anos 2000, e não apenas traição das antigas direções, evidencia os equívocos da estratégia política que impulsionou o campo democrático popular como um todo.

Esta é uma derrota que nos abate de conjunto. As nossas bandeiras, submetidas aos limites do Estado burguês, não tem vida própria. Restritas às direções consolidadas nas estruturas sindicais existentes, nossas lutas não tem protagonismo dos trabalhadores para enfrentar os dilemas que se apresentam.

Fala-se, em abstrato, em como “retomar o trabalho de base” e reorganizar um novo campo de trabalhadores… soluções formais que não enfrentam a questão central: é preciso reconstruir o movimento de trabalhadores no Brasil. A forma hegemônica, tanto à direita com o peleguismo clássico, quanto à esquerda com os esquematismos, as “reorganizações” , rachas e “novas centrais” foram incapazes de superar a hegemonia do sindicalismo oficial, da entidade representativa, do parlamentarismo sindical.

Esta estrutura e as táticas que se ergueram em torno dela, atualmente, incorrem em anacronismo e idealismo. A transformação revolucionária e comunista não será obra de dirigentes sindicais de classe média reunidos em plenárias em Brasília ou gabinetes parlamentares, a reconstrução que precisamos construir apenas será possível com a autocritica necessária do movimento sindical no Brasil.

As diversas iniciativas de autooorganização que surgem nesta conjuntura, materializadas em oposições sindicais autônomas e críticas à estrutura sindical existente, sentem na pele é preciso derrotar a cultura política hegemônica na maior parte do movimento sindical. Queremos dialogar com essas diversas iniciativas e também com as grandes alternativas de reorganização a partir da compreensão de sua insuficiência isoladamente.

Para as tarefas de hoje, resistir aos ataques e reencantar os trabalhadores com o comunismo e a emancipação, não precisamos inventar a roda, precisamos reconstruir o movimento dos trabalhadores no Brasil e superar os equívocos do sindicalismo deve ser central  para xs trabalhadorxs organizadxs em luta.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s